Pacientes com câncer precisam de apoio para vencer a doença


Em 04/02/2018

 



Líverson Souza da Silva tinha 22 anos quando recebeu o primeiro comprimido quimioterápico, minutos depois de ouvir o diagnóstico de leucemia no Instituto Estadual de Hematologia do Rio de Janeiro, em 30 de dezembro de 2010. Ele foi internado naquele mesmo dia, e só saiu do hospital dois meses depois.

 

Esse foi o início de seu tratamento de quatro anos contra a doença, que é tema de mobilização internacional neste domingo (4), com o Dia Mundial do Câncer.

 

A leucemia de Líverson está em remissão, período em que a doença desapareceu, mas o paciente continua em observação para que um possível retorno seja diagnosticado rapidamente. De sua experiência, esse carioca destaca o engajamento das pessoas à sua volta e também os sacrifícios necessários para ajudá-lo.

 

"Quando a gente fala de um câncer, não é só a pessoa que fica doente, é a comunidade em volta dela", diz ele. Sua mãe precisou parar de trabalhar para acompanhá-lo em consultas e internações, e amigos organizavam rifas e festas para ajudar sua família financeiramente.

 

Ao receber alta de sua primeira internação, ele precisou morar de favor na casa de um tio, porque sua casa era uma construção antiga, com mofo e infiltrações que prejudicariam a saúde de uma pessoa já debilitada.

 

"Eu tinha pouca intimidade com ele [o tio], só via uma, duas vezes por ano, apesar de ser um cara muito bacana. Mesmo assim, ele separou um quarto e passei um ano e meio, quase dois anos morando com ele". O apoio da família em casos como o de Líverson, na avaliação da diretora-geral do Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), Ana Cristina Pinho Mendes, é determinante.

 

"A maneira como o indivíduo e seus familiares lidam com o câncer é definitiva até para o próprio prognóstico e os resultados dos tratamentos", diz a diretora do órgão, que iniciou uma campanha para reduzir a estigmatização da doença e desconstruir a ideia de que ser diagnosticado com câncer é receber uma sentença de morte.

 

"No ambulatório, a gente vê pessoas que nem mencionam a palavra câncer. Familiares que tapam a boca, falam “aquela doença”, “aquele problema” e nem verbalizam. O fato é que hoje o câncer é completamente diferente do que era há 10 anos, há 15 anos. Os tratamentos são múltiplos e complementares".

 

O apoio multidisciplinar recebido durante o tratamento fez Líverson buscar o curso de Psicologia. Seu primeiro Exame Nacional do Ensino Médio foi ainda em condições especiais, nas dependências do HemoRio. Ele não passou e, na segunda tentativa, conseguiu uma bolsa integral para estudar em uma faculdade privada, onde já está no sétimo período.

 

"No final do tratamento, eu comecei a trabalhar voluntariamente em uma ONG [organização não governamental], e foi onde conheci minha atual esposa, que desenvolve trabalho voluntário comigo até hoje, na ONG Pró-Humanos", afirma ele, que se casou no ano passado, aos 29 anos, e alugou um apartamento em Guaratiba, na zona oeste do Rio. Seus planos são se formar, se estabilizar financeiramente e ter filhos.

 

Boatos e cuidados com o corpo

 

Uma mudança que o câncer trouxe para a cabeleireira Fabiani Monteiro, de 43 anos, foi observar e cuidar melhor do corpo. Quando foi diagnosticada com câncer de mama, aos 39 anos, ela conta que nunca realizava o autoexame e se apavorou ao se deparar com um nódulo de oito centímetros.

 

Com a doença em remissão há três anos, ela tenta passar essa experiência a outros pacientes, trabalhando na ONG Renascer.

 

"Hoje em dia, eu chamo muita atenção das mulheres para isso. Eu poderia ter descoberto esse nódulo mais precocemente e o dano seria bem menor", diz ela, que também defende que o acolhimento e a positividade das pessoas mais próximas são fundamentais.

 

"Atrapalha muito quando você vê que aquela pessoa ao seu lado não acredita que você vai ser curada. Quando você ve, ela se entrega à ideia de que você vai morrer e aquilo vai te consumir". Durante o período em que esteve doente, ela lembra que ouvia frequentemente conselhos absurdos.

 

"A gente escuta muita coisa. Você vai criando uma bolha e acaba perdendo ainda mais a sua qualidade de vida", confessa ela, que acredita que o paciente com câncer, ao receber o diagnóstico, precisa ter cuidado com a busca desesperada por informações.

 

"O momento do diagnóstico é o susto. Você quer correr atrás do seu prejuízo e buscar a cura pelos seus meios. É quando você começa a procurar no doutor Google e acha informações que não procedem".

 

O combate a notícias falsas e a boatos sobre a doença é um dos focos do Inca este ano, o que motivou a realização de um debate na sede do instituto na última sexta-feira (2).

 

Para a diretora-geral do Inca, o combate aos boatos representa uma forma de prevenir o câncer, porque a consequência muitas vezes é afastar os pacientes dos tratamentos corretos e criar falsas expectativas:"Isso gera ansiedade, gera muitas vezes expectativas irreais, fantasiosas e frustração porque não funcionam. É preciso que a informação correta chegue ao paciente e quanto mais informação, mais preparado o paciente estará para enfrentar a doença", argumenta.

 

Para tirar dúvidas e desmentir boatos, a Fundação do Câncer, entidade sem fins lucrativos, parceira do Inca, terá um consultório online, que será transmitido ao vivo durante este domingo no Facebook da instituição.

 

Oito profissionais da área da saúde, entre médicos oncologistas de todas as especialidades e enfermeiros, estarão à disposição da sociedade, falando das ações de prevenção do câncer, tipos de câncer mais frequentes e inovações em termos de tratamento.

 

FONTE: AGÊNCIA BRASIL

FOTO: ILUSTRAÇÃO


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